Pouco entederia se não me traduzisse, mesmo erroneamente, em
palavras. Não queria letras, pausas, exclamações. Queria silêncio. Queria calar
a boca. Minha boca, tua boca, toda boca que estivesse a vomitar palavras,
urros, sentimentos controversos... mas tive, tenho e terei que me contar a ti,
a ela, mesmo que não façam questão de saber, mesmo que o faça sabendo que o pedem por saber que não saberia
me expor, não sem machucar.
O de sempre, como sempre, gritado ao meu ouvido num debate
que não me envolve, diretamente.
“Ela, ...”
“mas ela...”
“A situação é que ela...”
A se soubessem! Sabem. Sabem de mim. Ou talvez tenham
esquecido. Tomara que sim. Estou acostumada com a solidão e se fossem espertas
usariam isso ao seu favor! Usam.
Quero te ver bonita, menina. Nada de inferioridade, mocinha.
A ti os ouvidos que roubei ontem. Perdoa a ousadia. E não
abusa da pouca paciência da tua ouvinte. Não queremos uma terceira guerra
mundial!
Estou em paz! E agora maior que qualquer mestre em fugas. O caminho
quente até a praça me garantiu mais três tons na pele ferida e um silêncio
borbulhante, rompido apenas para garantir que não mataria a pessoa de
preocupação. Matei minha fome, minha raiva e ao voltar te encontrei em
silêncio, o que manteve intacto o (perceptivelmente efêmero) bem estar adquirido.
Não quebrem tantas portas a minha procura! Não busco cômodos
para me guardar. Aquele quarto é rara exceção. Antes o ar livre, os pés doendo,
a surpresa da volta para casa, para vocês, no caso. O amor é controverso. Às vezes
pede que me enclausure entre paredes (agora mutantes), outras que busque a
vastidão entre o céu e a terra. Não briguem comigo. Deixei garantia de volta. Foi apenas um passeio. Por amor, por fome, por silêncio.
Sem planos, querida. Senti-me terrível ao perceber com
quanto orgulho falo dos desgraçados domingos. Sem planos, por favor. Ainda não
pensei no depois. Estou bem por hoje, e isso me basta. Que baste a ti também. Fiz
por nós. Por ti. Não sei o que é melhor, você diz, mas arrisco. Alguém precisa
arriscar. Esse marasmo já nos consome.
Sem mais sofrimento, eu te peço.